sábado, 7 de Novembro de 2009

CASINHA DE PAPEL

Que o vento sopre de feição
A chuva caia de masinho
O Sol contrarie este frio Inverno
Iluminando este caminho

Esta rua, se esta rua fosse minha
Ladrilhava-a com folhas de incenso verde
Uma alma percorre a vida sem rumo
Quando do seu destino o norte perde

Mas nesta rua cada passo é um desvario
Mas nesta rua o encontro é fatal
Nesta rua todos os dias acontece
O encontro do bem com o mal

Não sei quem vence!
Não sei quem leva a melhor
Só sei que um sorriso teu
Fez desabrochar das pedra uma flor

Com ela teci um tapete
Engalanei a sombra dos teus passos
Escrevi um derradeiro pedido numa pétala
Rogando a infinita ternura dos teus abraços

Nesta rua as casas são faz de conta
Nesta rua há um verdadeiro papagaio de bonita cor
No falar não diz coisa com coisa
Mas soletra sem engano a palavra amor

Nesta rua há um gato azul
Um cão vadio de sorriso feliz
Nesta rua há uma Mãe em espera
Que decida do seu ventre nascer o petiz

Há carnavais, bruchas e travessuras
Há Natais, guerras de cantigas
Uma estátua de sal azul
Duas gaiatas muito amigas

Os deuses hoje decidiram
Inspirar-me em folha de papel branco
Tracei linhas ao mero acaso
Criei um rosto de sorriso franco

Criei formas, as mais disparatadas
Até que o desalento me soube a fél
Encheu-me a alma de alegria
Quendo o lápis criou uma...Casinha de Papel...

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

UMA CIDADE INVENTADA

Descobri num pensamento fugidio
A esperança por um Sol brilhante
Descobri que o querer é folha sem vida
Na alma de um ser inconstante

Esta terra rubra e fecunda
Acolhe a vontade do semeador
Esconde a semente em seu seio
Explode o verde no maneio, no calor

Cresci com o aroma da terra
Com gotas de água fresca fui baptizado
Com as mesmas vi ungir uma alma na partida
Ouvi os sinos selarem o abençoado

Mas este Mar sempre tão presente
Esta espuma de sal feito diadema
Este imenso azul que rodeia a ilha
É cativeiro de um corpo numa perversa cena

De um coração que bate
Ao sabor da chegada de distantes vagas
De uma sina gerada na nostalgia
Vestida com manto de frias mágoas

Frias pedras, negro basalto
Sentinelas do receio à tempestade
Testemunhas da viagem do tempo
Cobertas de sal, guardiãs da verdade

Mas, não há duas reais verdades
Não há rios que correm para o alto
Não há amor num coração que mente
Não há ternura sem viver o momento

Hoje deu-me para isto
Nas divagações perdi o rumo
Hoje voei na contradição
Poisei com o Sol dançando a prumo

Soltei as asas feitas de bruma
Tenho presente a companhia de um milhafre
No rodopio de um melro negro
Selei as desventuras num singelo cofre

Que ao abrir soltou a contradição
Qual caixa de Pandora de sorridentes males
Toquei no teu retrato desbotado a duas cores
Pedi aos deuses para que me fales

Para dizer o quê?
A esta alma por Deus maltratada
Hoje procurei domar a emoção
Hoje procurei por ti…Numa Cidade Inventada…

sábado, 24 de Outubro de 2009

UMA IDEIA DE DEUS

A chuva parou
Este beijo húmido, marcas deixou
Esta terra ávida de verde
Este manto de nevoeiro a dor lembrou

Serão os anjos uma ideia de Deus
Atirados ao estéril da fé
Serão suas asas um manto de luz
Será que as penas perdidas vogam na maré?

Às vezes dou por mim a pensar
Serei um anjo Gabriel
Quando abraço a pureza e a verdade
Em taça servida no amargo do fel?

Às vezes encarno Uriel
Faço brilhar este Sol que há em mim
Ah mas estes pincéis fogem para o negrume
Na roda da vida busco o princípio do fim

Arcanjo S.Miguel
Tal como se chama esta derradeira ilha
Quando o mal se ausenta do coração
Será que floresce a maravilha?

Parei na viagem de rumo e estrelas
Sentei-me à beira de uma lagoa sussurrante
Um Milhafre fitou-me zombeteiro
Hesitei na procura do adiante

Na ilha há sempre uma criatura em vigília
Há sempre um feiticeiro vento
Há sempre uma flor que a alma seduz
Há sempre no acontece um mágico momento

Mas esta ilha que há em mim
Mergulhada em meu peito
Faz de mim um ser diferente
Moldado a lava, imperfeito

Lembrei-me das casas do sul
Apenas das brancas vestidas de cal
Lembrei-me de perdidos sonhos
Esqueci por instantes a sombra do mal

Esqueci quem sou por breve instante
Senti que o mundo me embalava docemente
Senti a ternura do abraço
Em arrepio travei o eternamente

Subi o monte mais alto que me saiu ao caminho
Olhei por estes olhos como se não fossem os meus
Serei eu uma comédia de desenganos
Ou apenas...uma Idéia de Deus...

sábado, 17 de Outubro de 2009

REZEI-TE A SINA

Cai em cascata o som pungente

Que estes sinos gritam em inquietação

Percorrem as pedras da torre

Arrancam ao peito a emoção


Por quem dobram

Porque ensombram esta aurora

Porque continuam desertas as ruas

Porque é que o ficar demanda o ir embora?


Mares, céus de fogo e luz

Ardência de uma palavra de raiva pintada

Uma gaivota a fugir ao mar bravio

Uma alma que pede num mar de nada


Arde uma fogueira de fogo brando

O bruxulear de uma vela descobre um santinho

Véu negro de noiva perdida ao tempo

Sete passos vagos à beira do caminho


Corre assombração

Vai para outro mundo numa toada de vento

Afasta de mim este cálice

Deixa-me aprisionar a morte na vida por um momento


Deixa-me sentir com a alegria dos sentidos

Deixa-me acreditar no voo do por-do-sol

Deixa-me beijar as águas de um lago feliz

Deixa-me navegar sem rumo, perder o controle


Ah mas esta melodia irónica

Que um pássaro repete virado a sul

Não a cala, não a prende

Esta água furiosa que se desprende do azul


Navegante vindo da terra do nunca

Um alvoroço gerado no espanto das gaivotas

Uma andorinha do mar deixou-se ficar

Um ninho sem tecto, sem janelas, sem portas


Uma lenga-lenga de salvê-rainhas

O cacarejar de uma galinha preta

Agua benta para cuidadas mezinhas

Uma mentira de abril, chama-se pêta


Só vejo verdade nos teus anseios

Reflectem sonhos sinceros teu terno olhar

Sinto um bater triste de amargura doce

Neste coração tatuado com o verbo amar


Vejo tanto, vejo tão pouco

Nas linhas que o tempo confina

À luz do querer pedido em devoção

Com a tua mão presa à minha...Rezei-te a Sina...

sábado, 10 de Outubro de 2009

O SILÊNCIO DE UMA LÁGRIMA

A meiguice dos teus olhos
Enternece a alma mais dura
Sei-te em cada batida de coração
Na verdade da água pura

Voa pelo celeste no seio de uma nuvem branca
A água que beija a ilha
Apaixonou-se pela sua sublime beleza
De emoção chorou perante a maravilha

Uma lagoa recebeu o pranto
Um pássaro sacudiu das penas o orvalho
Uma flor soltou um aroma selvagem
Um homem regou com suor a terra em trabalho

A verdade da terra
De verdadeira verdade se veste a tua alma nua
O mundo conhece teus passos
O teu destino impresso nas pedras de uma rua

Frias pedras, negro basalto
Xaile que molda a paixão
A calma do voo da garça
Um destino largado no chão

Mil pedaços dispersos
Mil pensamentos de inquietação
Onde guardas os teus anseios?
No lado esquerdo do querer, um coração

Triste poeta cavalgando a rima
Voando num mar de emoção, quais vagas
Em mar alteroso navegas sem vela e leme
Aproando o sul, fugindo às mágoas

Uma furtiva lágrima
Será apenas o sal da maresia?
Um castelo mais alto do que o pensamento
Um sol menstruando o céu ao fim do dia

Uma mulher, o amor
Às vezes acontece esta união
De um ser que sente diferente
Preso às malhas da paixão

Às vezes alegria nasce da dor
Às vezes no peito acende-se uma luminosa chama
Às vezes explode o sentimento verdadeiro
No...Silêncio de Uma Lágrima...

domingo, 4 de Outubro de 2009

O CAMINHO SECRETO DAS GAIVOTAS


Hoje a ilha acordou abraçada ao vento
A chuva derramou um rio de contas de água
Hoje uma roseira esqueceu-se de florir
Hoje uma alma suspirou uma profunda mágoa

Quantos caminhos tem um coração
De quantas Luas se faz uma espera
De quantos sortilégios se faz a assombração
De quantas cores se pinta a quimera?

O mar acordou zangado
Açoitou as pedras em frenesim de sal
A espuma ornamentou a ilha em diadema
Afugentou para as profundezas a investida do mal

Hoje os pássaros guardaram o canto
As folhas cobriram a terra
Os deuses enviaram o vento tempestuoso
Declarar ao verde uma furiosa guerra

Estas vagas galgaram o colo da costa
Um ninho resiste ao agreste do tempo
Uma giesta dobra-se ao fustigo
Uma hortênsia eclode no negro basalto

O amor procura o aconchego
Duas almas suspiram em entrega total
Explode a paixão, enlouquece o querer
O amar às vezes é pecado mortal...

...Às vezes uma intensa alucinação
Em que viajas pelo meu eu
Às vezes o mundo fica em espera
Da união do mar com o céu

Onde param os teus anseios
Onde encontras a sublime calma
Nestes dias de dura tormenta
Onde aqueces a tua alma?

E eu que não desisto de amar o mar
E eu que vivo prisioneiro do horizonte
E eu que vagueio na crista do sonho
E eu que arrocho esta alma inconstante

Uma alma que corre o mundo de lés a lés
Tal como este vento que varre as encostas
Viajo na distância de um beijo perdido
No...Caminho Secreto das Gaivotas...

sábado, 26 de Setembro de 2009

EU TIVE UM SONHO

Noite que foje ao dia
O vento carrega penas profundas
Acendem-se os luzeiros no céu
Vagueiam na sombra as almas magoadas

O amor cobre e descobre o seu rosto feliz
Um beijo anda solto de um sopro puro
Dois amantes dividem uma maré de espanto
O desamor ergue na vida um frio muro

Uma estrela do mar percorre o azul
Uma estrela no céu anuncia a claridade
Uma longa espera arrocha o peito
Um suspiro solta a incontida saudade

Na crista da maior vaga sorri Neptuno
Dançam as Sereias entoando um chamamento
Os deuses não têm coração
Não ouvem o ecoar de um sentido lamento

Sonhei com a música
Com as palavras que nunca te direi
Sonhei contigo vestida de brisa
Descobri gravada numa árvore a palavra amei

Uma flecha cruzava um coração
Uma cor vermelha escorria sentir
Olhei para o horizonte
Quatro passos adiante marcaram o partir

A noite encheu-se de brilhantes olhos
Nesta peça serei um actor verdadeiro?!
Talvez um Arlequim patético
No seu acto derradeiro

Talvez um buscador do amor
Talvez um caçador de estrelas de sal
Talvez uma comédia d'enganos
Talvez o bem na ironia do mal

O tempo parou!
Este relógio hesita um segundo
Uma estranha calma invadiu-me
Deixei de ouvir a voz do Mundo

Deixei-me levar para uma cidade inventada
Encontrei a bondade num rosto bizonho
Encontrei-te na verdade da terra
No teu sentir...Eu tive um Sonho...